quinta-feira, 22 de novembro de 2007

No seu barquinho


Entre os rapazes andavam três ou quatro moças, novinhas e gentis, com cabelos compridos pelas costas e muito pretos e tinham as partes intimas expostas, mas não se envergonhavam de olharmos.
Não dava pra entender nada do que diziam, pois faziam muito barulho juntos e falavam de uma só vez causando tumulto. Assim pedimos para que fossem embora e assim fizeram atravessando o rio. Saíram uns três ou quatro homens dos barquinhos e encheram não sei quantos barris d ´ água. E voltamos para as naus. Quando estávamos indo acenaram para que voltássemos e assim fizemos e mandaram ir conosco o degredado pois não queriam que ficassem lá com eles. Este trazia uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para quando chegar dar ao senhor se ele estivesse lá. Não lhe tiraram coisa alguma antes mandaram – no com tudo. Mas então mais uma vez Bartolomeu Dias o fez voltar.
E tinha um que já era de idade, andava cheio de penas, pegadas pelo corpo e parecia ferido com flecha como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas e outros de penas vermelhas e outros de verde. E outras daquelas moças eram tingidas de baixo a cima daquela tintura e de certo eram tão bem feitas e redondas e suas vergonhas tão bonitas que se as mulheres da nossa terra vissem iriam ficar com vergonha por não terem iguais às delas. Nenhum deles eram mutilados, mas todos assim como nós.
E com isso voltamos e eles se foram.
À tarde saiu o capitão – mor no seu barquinho e todos nós também nos nossos barquinhos a passear e divertir – se pela baía, perto da praia, mas ninguém saiu em terra todos estavam nos barquinhos, pois o capitão não deixou, apenas saiu ele e nós em um ilhéu grande que está na baia o qual quando a maré baixa fica muito vazio. Com tudo esta de todas as partes cercado por água, de sorte que ninguém pode ir lá a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele e todos nós bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com uma rede e mataram poucos peixes pequenos e depois voltamos às naus, já bem noite.
No domingo seguinte ao da páscoa, pela manhã determinou o capitão ir ouvir a missa e sermão naquele ilhéu e mandou todos os capitães que se arranjassem nos barquinhos e fossem todos com ele e assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu e dentro levantar um altar muito bem arranjado. E ali com todos nós fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique em voz entoada e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo o meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.
E ali estava com o capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.
Quando a missa acabou, desvestiu – se o padre e subiu a uma cadeira alta e nós todos lançados por essa areia e pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica e no fim tratou da nossa vida e do descobrimento dessa terra referindo – se à Cruz, sob cuja obediência viemos e fez muita devoção.

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